Em recente viagem entre os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, visualizei, além das brutais diferenças na paisagem - mais harmonica neste último, que no outro, onde o cenário natural parece haver sido colocado lá de forma displicente e brutal - , um lindo bosque de pinheiros, entre duas pastagens com esparsas araucárias.
Dentre as minhas reflexões desejo compartilhar uma que me ocorreu ao observar este bosque, ou diversos quem sabe, ao longo de meus descaminhos, e compara-los, em memoria, às florestas nas quais vivi, entre as que mais amei a mata atlântica onde nasci e passei os melhores anos da minha vida.
Quanto às florestas, penso que se mostram como cerrados muros de arvores, cheiros, e cores exuberantes, santuario de uma fauna onipresente e esquiva. Ela nos diz, em meio ao calor e aos galhos retorcidos, "se tens amor a tua vida não me prescrutes". Nosso fascinio, entretanto, não nos deixa atentar para tal advertencia e nelas nos metemos, às vezes com consequencias desastrosas para ambas as partes.
As florestas despertam em nós instintos ancestrais, como os da conquista e da destruição. O saque não raro ocorre, em pequenas ou grandes proporções. uma pequena flor ou galho, que teimamos em levar de lembrança, para descontentamento de seus quardiãos imortais, ou a derrubada de equitares inteiros em nome do desenvolvimento predatório.
A floresta é Dionisíaca, tributária de Baco e da narcose. É um lugar para desvario, é lugar de paixão e rituais obscuros. Ela é essecialmente antropofágica.
Quando nos referimos a metrópolis ou megalópolis nos referimos a florestas de pedra, não por outra razão.
A floresta é via "hepática".
Os bosques são mais estruturados, especialmente os das regiões temperadas ou subtropicais.
Quando não abertos e dispersos como os explendidos bosques de araucária, se afiguram estranhamente alinhadas, suas arvores, como nos de sequoias e pinheiros.
Formam aléias que nos convidam a penetrar mais fundo em seus suaves mistérios, e à medida que nos arriscamos neles, escurecem e se tornam misteriosos, um verdadeiro labirinto onde se podem encontrar criaturas elementais e silencio.
Ao andar por bosques, especialmente em sítios arquelógicos na Inglaterra, Gales e França (falo do que testemunhei), nos deparamos com espaços rituais;
Numa experiencia muito estranha durante uma visita a Stonehenge (muralha de pedras), fui alertado num mini transe, que por pouco não vira vexame, que o monumento localizava-se, originalmente num bosque, informação essa depois confirmada junto ao museu local. Podem invocar Jung, mas eu pessoalmente acho que a experiência foi mais além, até pela riqueza de detalhes.
Como não tinha essa informação, apesar de achar o monumento bastante intrigante, fui tomado pela surpresa, e me indago porque os antigos membros de culturas megalíticas, e seus herdeiros os druídas, construiram, a par do alinhamento astronomico, dentro de uma floresta uma cerca de pedras. Poderia isso demonstrar algum respeito especifico pelas florestas, ou quiça um respeito reverencial pelos seus guardiãos.
Seja qual for a resposta, as culturas que floresceram nas bosques, eram mais especulativas, em especial em relação à astronomia e passarm muito rapidamente do animismo a um complexo sistema ritual, estruturaram suas sociedades mais rapidamente, e resitiram com mais bravura ao avanço de novas culturas e ao adento de novas religiões.
Seus sucessores na História Universal, como os que vieram a habitar a Bretanha inglesa, foram arautos da democracia e da liberdade religiosa. Não sem razão resistiram e prevaleceram sobre a Espanha Inquisitorial e Católica, a qual após afundou num lamaçal de sangue e prostituição da Fé.
Os bosques, por conseguinte, são apolineos, sua luz e difusa e contrasta com a quase aboluta escuridão das florestas.
O bosque é a via "cardíaca".
DOS CONTRASTES
As culturas que habitaram as florestas consumiram e foram consumidas pelo meio ambiente, como os maias, e antes deles os olmecas e toltecas. O brilhantismo desses povos destoa do seu relacionamento com a natureza.
As culturas que se desenvolveram próximo aos bosques se tornaram mais reflexivas e lançaram as bases das diversas tecnicas e tecnologias sem as quais não teriamos chegado aonde chegamos.
São otimistas, ao contrario das outras que se tornaram notórias pela visão catastrofística e ciclica do cosmos.
As culturas derivadas dos bosques, ao contrário, são lineares e racionalistas, beirando o distanciamento do humano.
DO PARALELISMO COM AS RELAÇÕES HUMANAS
Arriscando um paralelismo entre as relações alinhavadas acima sobre as florestas e bosques, e as relações humanas, cheguei às seguintes conclusões:
Algumas relações humanas são selvagens como as florestas, não ostensivamente na maior parte das vezes, já que estamos mais ou menos vacinados, predatórias, arrebatantes, fulgazes...
No ambiente familiar esse tipo de relação pode levar ao acumulo de ódio e ressentimento que pode se arrastar por anos, com um potencial autofágico ainda não mensurado pelas ciencias da alma.
No campo das relações de amizade podem ocasionar equívocos e rompimentos indesejáveis, deixando cicatrizes incapacitantes e as vezes sem retorno. Ou nos tomam por exploradores ou por explorados, e a racionalização dos fatos dá lugar à vitimização dos sujeitos. Um desastre.
No campo amoroso, é terra de paixões, dos desvarios, alucinações, miragens e cegueira.
As "relações tipo bosque", estão mais para a calmaria do amor, do compromisso com o ritmo e o cotidiano, com a estabilidade e a cumplicidade.
Não me refiro às relações humanas "de acomodação", onde prevalecem os interesses, já que não chegam sequer a arranhar qualquer conceito de relacionamento. São uma espécie de prostituição velada, onde se dá e troca bens da vida, sem sentimento de permanencia, esse último presente até nas paixões.
Testemunhei e testemunho muitos desses relacionamentos desertos, áridos, previsíveis e destinados à estagnação.
As "relações bosque" têm uma racionalidade própria, mas profícua, tendem a gerar movimento, ainda que não desenfreado, são progressistas e tolerantes, assim na familia, como no amor e nas amizades.
São generosas e acolhedoras, podem evoluir de relações floresta, mas nunca de relações deserto.
Hoje talvez estejamos numa época de sofrida transição das relações bosque, atraves das relações floresta para as relações áridas, em antevisão do que virá a ser o futuro daquilo que costumamos chamar humanidade.
REFLEXÃO.


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