quinta-feira, 2 de abril de 2009

AGAPE*


Depois do soluço, o suspiro.
E retomo o tema da felicidade, porque não, afinal é ela que nos impulsiona, na busca desesperada de fugirmos do sofrimento que nossa mente nos infringe.
Espero que o susto que Franz K nos deu não tenha apagado as reflexões anteriores acerca do papel da Mente na definição dos objetos de nosso desejo.
A mente, quase sempre, nos guia na direção a um objeto especial, o amor, ou pelo menos o que pensamos ser amor.
O amor por um objeto, um lugar, um ser vivo, uma estação, um estado de espírito, e, não custa lembrar também nos direciona aos nossos semelhantes.
Vamos convir que o amor pelas demais coisas, a parte dos semelhantes, é mais fácil de se identificar como uma forma de apego, porque se pode os ter e perder, as vezes. com certo grau de sofrimento não fatal.
Já o amor pelas pessoas tende a ser mais prolongado e sofrido, não que as tomemos sempre pelo que são, pessoas, e não objetos, e esse é o pior tipo de apego, porque ele nos confunde acerca da quididade do outro (de enxergamos e aceitarmos o outro como ele é, sem plasmar nele nossos anseios, nossa "weltanschauung" (nossa visão de mundo) ,nossos planos, nossa forma de sentir prazer, de sermos felizes e mesmo de sofrer).
Esse tipo de amor, o amor cego, o amor-apego, desesperado, angustiado, enciumado, "grudento", ressentido, alguns chamam paixão, e com perdão do eco, não sem razão.
Nossa trilha começou com uma reflexão cabalística, passou por um conceito budista e agora, se volta para outro, do hinduísmo chamado ilusão ou Maya.
Maya é uma deusa, mas é também a ilusão de que as coisas são coisas em si, que são imutáveis e que podem nos dar prazer.
Isso porque os sentidos, veículos da mente se debruçam sobre a realidade de uma forma que nos equivoca e desorienta. No Bhagavad Gita a Mente é descrita como uma carruagem guiada pelos sentidos, sendo arrastada de lá para cá, de forma desenfreada, e somos conclamados a tomarmos as rédeas dessa carruagem e direcionar os sentidos para dentro, domestica-los, mas não a nos privarmos deles, afinal sem eles estaríamos perdidos no mundo material. Ao lado da mente encontra-se o verdadeiro Eu/Self (usaremos esse conceito que nos parece útil agora, mas em outro momento vamos descarta-lo também como obstáculo à Felicidade, com F maiúsculo)
A Mente se debruça sobre agregados (skhandas), que são à rigor, suas próprias criações e que somos conclamados, por diversos mestres e avatares, a repetidamente identificar e desconstruir, para logo reconstruirmos e tomarmos posse do seu real sentido.
Uma parede é real, assim como sua mão ou uma árvore, mas não real no sentido que estamos acostumados a crer. As coisas e as pessoas não podem ser identificadas na sua não-essência pelos órgãos dos sentidos, já que os elementos, que as compõem podem ser decompostos ao infinito. O que enxergamos é a aparência e não o real.
Os sentidos mais básicos, aqueles que todos aprendemos na escola, visão, olfato, paladar e tato, são instrumentalizados pelos órgãos que lhes dão suporte, olhos, nariz, língua e pele. Estes por seu turno, recaem sob "objetos externos", compostos por elementos.
São eles para os hindus, em ordem crescente de tangenciabilidade, a terra, a água, o ar, o fogo, a mente, a inteligência e o falso-ego.
Observe, que a Mente pode se debruçar sobre a mente e tomá-la por objeto e é a partir dai que as coisas se complicam.
Ao se curvar sobre si mesma a Mente se torna um objeto em si e para si, e distorce nossa percepção do real, criando ilusão (Maya) e Sofrimento.
Mas é também através da Mente, e dos sentidos, quando percebidos na sua real "essência", que alcançamos tanto a felicidade-satisfação, impermanente e prima-irmã do sofrimento. como um minus quanto a Felicidade, como estado de percepção-permanente da "realidade".
Não devem, portanto, nem os objetos dos sentidos, nem os sentidos, nem seus veículos serem admitidos como coisas más em si, são apenas o que são e devem cumprir sua função, para que possamos manter nossos corpos, viver em sociedade, produzirmos e sermos capazes de conduzir outros à Liberação, a nos capacitar para o Amor.
Nesse sentido, o Amor, é mais Caridade que paixão ou apego.
O Cristianismo nesse particular e em muitos outros converge com as demais religiões que a história nos legou: Amar é entender que somente poderemos ser felizes quanto todos, SEM EXCEÇÃO o forem.
O budismo mahayana apregoa que nenhuma alma será realmente liberta (alcançará o Nirvana ou além) até que a última alma assim o seja. Por isso os que alcançaram o estado búdico reencarnam, por isso Jesus aceitou receber um corpo "carnal", Krshna se tornou um mero escudeiro de Arjuna na luta contra os Kurus, e tantos outros Mestres e avatares aqui apareceram, sofreram, inspiraram e partiram. Com a finalidade de acelerar o processo de liberação desta última alma pela qual a ilusão luta, que pode ser a minha ou a sua.

REFLITA.

*referências mínimas: http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81gape; Bhagavad Gita 1: 14; I João 3:16.

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