quarta-feira, 25 de março de 2009

MATER DOLOROSISSIMA



Exéquias (lida e compartilhada com amigos no aniversário de um mês de partida de nossa mãe)


A última vez que estive com mainha - sim porque na Bahia, como em outros recantos do país, abolimos o português castiço mãezinha e adotamos o vernáculo afetivo, ela já estava em coma induzido - , com a pressão muito baixa e logo percebi que a teríamos por pouco tempo entre nós.

No cubículo da UTI, pedimos que mantivessem sempre a TV ligada, já que na família somos todos viciados pela tal Deusa Platinada, especialmente minha mãe relegada aos afazeres domésticos e aos cuidados com o seu condomínio que administrava com zelo maternal.


Lá era desde conselheira a fiscal.

Confirmando sua vocação de boa administradora e “crente” em milagres, colocou as contas em ordem, em ordem pôs as áreas comuns e acolheu em nossa casa, pessoas as mais diversas, com suas crises domésticas, crianças que precisavam de companhia enquanto os pais se dedicavam aos seus labores diários sempre com uma palavra de conselho, um doce e uma bênção.

Neste último dia, cheguei ao seu lado, e de pronto a TV começou a sonar uma espécie de hino a minha mãe, música da Rita Lee, cujo refrão, peço licença para aqui reproduzir:

“Porque nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é bunda,
Meus peitos não são de silicone,
Sou mais macho que muito homem”.

Acompanhei a música, dançando ao seu lado, e cantando, e um de seus olhos abriu um pouco e nele se esboçou uma pequena lágrima. Tinha certeza que era minha última homenagem a ela em vida.
Minhas irmãs mantiveram o sonho de vê-la recuperada, mas eu, naquele momento recebi como que uma lufada de conforto no coração. Não estava mais confuso ou desesperado, os seres de luz que a preparavam para ascender, me deram a certeza que aquele não era o fim, de que minha mãe aguardava um futuro melhor num corpo sem máculas, e de que um dia iríamos nos reencontrar.

E, era, com efeito, mas macho que muito homem, minha mãe. Desde a saída prematura de meu pai do nosso lar, administrou com coração e pulso forte, as finanças da casa e seu destino, mesmo diante do fato que lhe foi negada a vocação de administradora, quando foi proibida de trabalhar.

Daí por diante, a vida de minha mãe foi podada, começou a murchar. Vieram os filhos, que aos quais ela se dedicou com afinco, três ao todo, já que um quarto faleceu ainda em seu ventre, mas que acho que reencarnou, os descrentes que pensem que isso é uma figura de linguagem, em um dileto irmão aqui presente, o Newton, que com minha família manteve estreito laço filial.

Aliás, mais baiano do que eu.

Minha mãe em seus últimos dias demonstrava uma preocupação diária com o peso e a saúde do coração desse filho de adoção: “como anda o Newton ?”, perguntava, “morando tão longe da mãe (Luzia)”, “quem cuida dele ?”, e lhe prometeu uma frigideira de bacalhau, que não teve tempo de preparar (mas a posta, colossal do peixe, continua no freezer em Salvador, os temperos cortados, tudo pronto, aguardando um ok para ele recepcionar sua iguaria no Aeroporto Galeão).

“Olha meu filho devemos muito ao Newton, nunca me esqueço dele calçando suas meias quando você ficou doente, viu ?”

Outra figura aqui presente que a conheceu de perto é a Célia, a quem minha mãe me recomendava todo o sábado, passava receitas por telefone, e tratava como se fosse uma espécie de seu clone por aqui.

Sempre que se referia a Célia me recomendava respeito, “afinal ela é mãe de família não se esqueça”, dizia, e pedia que lhe comprasse presentes, uma champagne no Natal, aliás duas, uma roupa, um sapato... Prometeu e também não teve tempo de cumprir, mandar um belo acarajé da Bahia, daqueles bem preparados e recheados de camarão. Agora eu vou cumprir essas promessas por aqui, dentro das limitações culinárias da cidade maravilhosa, e com menos “axé”.

Ah, tem também o Woody, essa coisa branca que deve estar circulando entre vocês. “Não grite com ele”, ordenava; “o coitado fica o dia inteiro sozinho em casa”; “manda ele pra cá” dizia, e lá em Salvador fazia-lhe todas as vontades, a ração ia e vinha com o mesmo número de grãos, já que ela cozinhava somente pra ele (osso de patinho), e eu que sempre levava o pitbull com 9-10 kg e o trazia com 11 ou 12 dependendo da quantidade de dias que ele ficava por lá, resultado, excesso de peso na bagagem.

Minha mãe era muitíssimo vaidosa, qualidade essa que legou a dois de seus filhos, minha irmã caçula, Adriana Marta, e eu próprio. Saltos altos sempre, até mesmo após a cirurgia bariátrica, para fazer corresponder sua altura ao seu caráter.

Decidiu ser cremada, porque não era lá muito fã de dogmas de qualquer espécie a respeito do destino de seu corpo físico. A rigor, era teísta, e acreditava em viver. Amava o vinho e as viagens. Tinha um senso de humor peculiar, e adorava rir de forma sonora.

Passo a vocês três fotos de minha mãe (estão agora disponíveis no orkut): uma de sua formatura mas ela já cursava desde 2004, a universidade da terceira idade e era solista de um coral na Bahia, onde se destacava na interpretação da Ave Maria de Gounot; outra na Serra dos Órgãos em Teresópolis, entre plantas, que ela tanto amava, e riachos; e a última em 2003, toda de branco, a última que tiramos juntos. Ai já anunciava sua missão de anjo.

Faz alguns anos, minha mãe chorava mais do que sorria, e pedia para “descansar”...

Em minha última ligação telefônica, me falou com voz de passarinho, “meu filho acho que não chego ao final do ano”. Eu a repreendi, assustado, dizendo que o dono de sua vida era Deus, e ela confirmou, “por isso mesmo”.

Bem, Deus queria mais um anjo perto de si, e levou D. Urânia na noite do dia 20 de outubro de 2008, às 19 horas. Nós a cremamos no dia seguinte como era sua vontade e, talvez, para escândalo de católicos, adventistas, mórmons, protestantes, judeus, espíritas e outras tribos, que acharam sua escolha pouco ortodoxa. Às favas com a ortodoxia, decidiram seus filhos, essa era sua vontade, afinal a ortodoxia não é o fraco das mulheres de sua geração.

Hoje foi finalizado o preparo de suas cinzas, e enquanto eu escrevo essas exéquias a sepultura da família esta sendo aberta e seu corpo depositado ao lado do de meu sobrinho Stephen, de quem ela cuidou com tanto carinho após o parto de minha irmã nos EUA, lhe dando seu primeiro alimento sólido, grãos de feijoada, “que era para ele se acostumar com comida de verdade”, disse. Sua morte prematura arrancou um pouco mais da alegria de viver de minha mãe.

No dia de sua morte, enquanto nos preparávamos para ir ao hospital, sem saber que naquele momento ela nos deixava, minha irmã Soraya descobriu numa agenda um lindo texto de minha mãe, perdido entre receitas, telefones, e anotações de toda espécie. Nesse texto ela pedia para não ser recordada com tristeza, pedia para que mantivéssemos a certeza de que sua chama não se apagaria, de ela estaria sempre entre nós.

Acreditem, nesse momento em que escrevo posso sentir à minha volta o perfume que ela mais gostava de usar, o tradicional Chanel N.º 5, com o qual nos lhe perfumamos quando preparamos seu corpo. Os céticos dirão que é auto-sugestão, os demais saberão do que estou falando.

Mas agora é ora de orarmos por seu descanso e depois, quem quiser pode ler alguma coisa ou dar um depoimento e, depois, comeremos algo doce em sua homenagem.

Obrigado pela presença.
* A foto acima é da musa Urânia (A celestial) que regia a astronomia e tinha como instrumentos e símbolos o globo celestial e o compasso.

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