
Não acho que estou sendo justo com o anonimato, uma qualidade que cultivo de forma claudicante, afinal, quem é anônimo de carterinha não frequenta redes sociais, nem "blogueia", nem "twitta".
Mas hoje proponho uma reflexão acerca do não anonimato, numa sociedade de massa, na qual as pessoas se atiram com fúria à notoriedade, das mais brilhantes às mais obtusas.
Entramos numa luta desenfreada para nos diferenciamos dos outros, com a ajuda da moda, não importa o gosto, das academias, suplementos alimentares, terapias alternativas, clinicas de estética, restaurantes da moda, ativismo político e social, para não mencionar os menos óbvios, sexo e dinheiro.
Sacrificamos nossas identidades, nos mesclamos sem nos tocar, adotamos posturas idiossincraticas bizarras, nos irritamos quando um site não permite que criemos "avatares" efetivamente únicos, nos orgulhamos de não pertencermos a nenhuma religião legitimamente instituida, porque "cremos apenas em D´us", no máximo temos uma vaga noção do que transcende a matéria, e não nos dobramos aos sistemas tradicionais, desrespeitamos normas de conduta social, apenas pelo amor à liberdade de dizer o que pensamos em resumo somos grosseiros uns com os outros, concorremos para saber quem vai se sair com a dieta mais exótica, substituímos a fé pela intuição, e se mesmo assim não conseguimos sair do anonimato, adotamos um senso de espiritualidade racionalizado e que cabe exatamente nos nossos projetos pessoais.
Ai talvez a epidemia de cartomantes, leitores de búzios, centros espíritas e de pais e mães de santo inescrupulosos, com prejuízo para a interlocução dos verdadeiros homens de D´us.
Tudo que é "fake" e no tamanho certo do nosso falso ego, a serviço da promoção do nosso "particular" estilo de vida e de nossas convicções, danem-se os demais.
No plano intelectual, os diálogos viraram batalhas pela nossa supremacia intelectual, não importa se o assunto foi ou não "digerido" de forma convenientemente lenta.
No amor, vale o eu e não o outro, ainda que as demonstrações de afeto sejam meticulosamente ensaiadas, e quase sempre se resumem a uma mistura de auto piedade e egoísmo.
Colocamos sempre nossos projetos numa perspectiva holofótica, por menores e mais mesquinhos que sejam.
Estreitamos metas e valores para que nossa mediocridade lhes caia bem.
Na moda trocamos a seda pelo algodão e logo pelos sintéticos, o que realmente significa "enfeitar-se" por qualquer coisinha que nos ponha num patamar mais estreito e individualista. Note-se, aqui que na natureza, os pavões se enfeitam lindamente a milhares de anos, com as mesmas plumagens e não nos cansamos de admirar-los em sua aparente monotonia.
Homens querem carros mais vistosos, e músculos mais definidos, o tal abdômen tanquinho deixou de ser uma busca por uma aparência mais saudável, e transformou-se numa obsessão meramente estética.
As moças se transformaram em delgadas figuras sem forma, andróginas e insípidas. Buscam o "visual" que pareça mais agressivo aos olhos no sonho de que assim possam ser notadas.
As mais velhas, cismaram em retroceder as marcas do tempo e se fantasiam de gatinhas ao ponto de não sabermos dizer qual a mais ridiculamente vestida, se filha ou mãe, vitimas da moda e da falsa percepção da realidade.
Estreitar é o verbum da moda. Relacionamentos minimalistas, amizades regidas pelo utilitarismo, pessoas prontas para serem "consumidas" e "trocadas" no melhor estilo do escambo medieval.
Lê-se mais, coisas menos importantes, ouve-se mais música de qualidade duvidosa, come-se mais junk food em detrimento do bom e velho feijão com arroz, consume-se mais informações de segunda mão, já formatadas, confia-se menos nos atributos do caráter e mais no que se pode oferecer em troca...
Iludidos por uma falsa noção de individualidade, imaginamos que pensamos, e como dizia o poeta estamos redondamente enganados.
Nosso preço caiu consideravelmente, e nos vendemos cada vez mais por menos, para nos mantermos em evidência.
Chegou a hora dos melhores de nos reconhecermos o valor do anonimato, da reflexão solitária, da qualidade ao invés da quantidade, da solidariedade, e de nos mantermos na sombra para que o mais nobre brilhe.
Nem todos podem ser singulares, apenas alguns de nós, mas podemos vencer fora das luzes da ribalta a luta por nossas almas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário