domingo, 9 de agosto de 2009

A BARCA SURREAL OU VELHOS BAIANOS



Olho o Rio do Peixe, suas águas cor de âmbar e me surpreendo com a visão de uma galeota de cores fortes e adornos barrocos.

Capitaneando, um trôpego "Chóca", alma alcoólica e terna, verdadeiro barril de cerveja e vodka. Aponta de forma desordenada o destino, "para a casa dos Roitmain", tenho que tomar um trago e também algumas satisfações de um certo baiano desgarrado.

No leme, Deborita, La Mafalda, argentobaiana, em vestes cuidadosamente desgrenhadas como uma noiva gótica, já solta alguns impropérios, e arremete o navio a estebrodo. Vapores suaves de agua de cheiro se misturam aos da Perdigão, e mais impropérios são escutados, enquanto certo marujo de olhar confuso e nome de inseto, Barata, exala um chiiiiiiiiii, tentando apagar a chaminé, sem sucesso.

Atracados ou encalhados, até hoje não se sabe, por aqui a gente é mesmo dada a obras inacabadas e discussões inúteis.

Às favas com essa gente ! A baianada chegou.

Desembarcam juntos, velhos baianos José Alberto, menino triste e milionário e André, seu mais próximo amigo, éramos uma trinca de desordeiros no São Vicente, mas ninguém nos ousava tocar, éramos também o orgulho da escola, geração única, e de quoeficiente alto. O Zé com uma bola na mão, e a camisa cheia de lama, o André já sem chuteiras, lançava mais impropérios contra as margens lamacentas do rio.

Val, minha primeira namorada, afora as irmãs das empregadas, que eram primas, negra, alta e esguia, lança um olhar de nojo a sua volta, não se sabe se aos seus companheiros de viagem, se ao entorno, que a faz sentir náuseas.

Nilton, se assenhora da "praia", com sua silhueta espaldauda, e ares de fuzileiro. "Chegamos" vaticina.

Após uma breve discussão e uma consulta aos búzios decidem, com as bençãos de Senhor do Bonfim, Hashem e todos os oxixás, fazer uma pequena parada num bar. A empreitada poderia esperar.

Já aliviados de tanta secura e fartos do frio que começa a cair, partem rumo a certo cerro onde dizem vivem agora os Roitman, menos Heleninha, que se perdeu entre os cenários do PROJAC, e vive seus fracassos e tormentos sempre no mesmo horário e no mesmo canal.

Acostumados às ladeiras do Pelourinho essas criaturas e seus companheiros diáfanos, vencem rapidamente as ruas sem graça do lugar e de pronto se põem na empreitada de arrancar deste exílio um certo baiano convertido em carioca, malandro e andarilho.

Não há quem os detenha, que com eles vem os donos da rua da vetusta Bahia, e com esses não se deve brincar.

Desconsideram uma quase dezena de lombadas eletrônicas, com um ar de desconfiança, e se põem a subir escadas e arrancar olhares de pavor, "quem será essa horda", gritam senhoras assustadíssimas e feíssimas, e os seus esposos muito machos que são, põem-se de costas para protege-las do contato com tal patuléia. "Estranho", pesam os invasores, "se defendem com as costas".

Porta abaixo, tomam o cão de assalto, no que se esquecem exatamente o que estavam fazendo ali.

Mas uma sonora gargalhada os chama a razão, era o safado numa rede, como que já sabendo que viriam esses loucos a lhe buscar.

"Como ousa', pensam, "nos viajamos milhas e milhas sem direito a um abará sequer e esse traidor nos recebe medito numa rede". "Ponha-se de pé", ordenam, "viemos em missão".

Aos poucos o tal exilado, descorado e já quase perdendo sua fleuma carioca, pede que se acalmem e bebam algo, e pede desculpas por não ter comida descente para lhes oferecer... Aceitam, desde que não lhes venham a exigir nada em retorno, principalmente, paciência.

Horas após, e sem chegar a conclusão alguma acerca do que fazer, decidem desconstuir o lugar.

"É muito estreito e profundo, não deve fazer bem às almas que aqui se abrigam". E depois, o porque de tantos carros, se do aqui para o ali, existe apenas um ponto e três lombadas, se perguntaram.
Demovidos de tal empreitada pelo tal exilado, por achar que o que Deus enterrou não deve o homem desenterrar, resolvem apenas dar-lhe uma carona, para sua tristeza não à velha Bahia dos velhos Bahianos.

"Fico a meio caminho" disse, insistente, o tal baianoca, fico entre o mar e as montanhas do Rio, afinal, a Portela me espera, sem mim não tem carnaval, e o Flamengo, sem minhas rezas e badulaques não emplaca, depois tem os pasteis do Pavão Azul, o champagne do Ovelha e o spa do Copa, sem falar dos amigos de A a Zinco.

Ainda não foi dessa vez, pensaram, esse ai perdemos para o Rio, mas valeu a viagem, depois íamos mesmo parar por lá, rever Sebastião o Santo e Jorge o Guerreiro, pedir benção e levar axé.

E partiu a Barca em sua depois viagem de volta ao real; os velhos Bahianos são afinal neo-barrocos, a convicção do surreal não lhes atinge.

Um comentário:

Anônimo disse...
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