sábado, 27 de junho de 2009

O OCEANO DE UMA LÁGRIMA


Hoje abandono as abstrações de novo e volto meu olhar para dentro , com sua permissão caro leitor.

Longe de casa, dos meus, em cidade estranha, sensação sufocante de hostilidade generalizada, muito pouco me resta a não ser as lembranças, e elas brotam, impiedosas.

Das longas gargalhadas de meu amigo/irmão Marcelus, daquelas descontroladas, que emendam sorriso e sufoco. Das atrapalhadas de outro irmãozinho Bruno, tão viciado em doces que parece o muppet "Come-Come", carinhosamente conhecido como Sequela. Do ar sisudo e do mal disfarçado sarcasmo de dois outros lusitanos Marcelo e Fernando, cultissimos, que até hoje me comovem pelo carinho. De Renatinha, perigosa amiga que fala batendo, mas que se desmanchou na cerimonia de uma semana do passamento de minha mãe, amiga para todas as horas, uma alma tão grande que mal cabe em seu corpinho. Dos meus amigos de academia, Homem-Água (Bruno) meu personal, criançola competente que cuidava de meu corpo mas também de minha cabeça, o Garoto-Enxaqueca (Paulo), Miguel (mestre e psicólogo de todas as horas), Wagner (iluminado que permanece entre nos por caridade), dentre outros que a Pro-Limits trouxe ao meu convívio.

Da Justiça Federal, por todos, e por nenhum pela singuladidade, Claudinha, de sobrenome pomposo e sorriso largo, coração enorme e um péssimo gosto por times de futebol.

Outros reinam, incontestes, Isaac, Filho da Promessa, alma que encarnou acho que so para besuntar de unguento as minhas feridas espirituais. Daniel, velho samurai, que muito me ensina pelo silencio e pelos koans que me impõe. Malena, peruana, linda, séria e que encontrou sentido na arte de iluminar ambientes, através de pequenos pontos de "led", arte minimalista e que poucos arquitetos dominam.

Minha louca diarista, e cover de mãe Célia, e sua ruidosa visita aos sábados, suas implicâncias com minha omnipresente bagunça de homem-solteiro (teimava, como capricorniana, em impor ordem a tudo.

Até meus vizinhos, Adriana e Antonio, seu filhos Isabela (uma pequena genial politicamente correta) e Pedrinho (corrigindo João Pedro como gosta de ser chamado aos 4 anos de idade), com suas mil fantasias de heróis, e a Wendy, uma filhote de shi-tzu agitadissima, apaixonada pelo Woody). A Denise e os seus, especialmente o Tobby, yorkshire de temperamento terrível mas que respondia com latidos interminaveis às minhas imitações do conde Dracula.

As árvores centenárias que cercavam meu apartamento, a vista do Cristo, sempre se metamorfoseando entre nuvens.

Minhas irmãs e meu pai com suas incessantes preces e conselhos.

Mas a maior de todas é a lembrança de minha mãe que nos deixou em outubro para cuidar de assuntos em esfera mais elevada. Sei que ela nos vela, e vem nos visitar toda noite, as vezes sinto que no corre-corre do café da manhã me diz: "se alimente bem", "já comeu" quando por engano pego algo de sua porcelana chinesa que ela me deu com carinho e recomendando cuidado, ou olho um coelhinho de cristal que me deu em uma de minhas visitas.

Sempre procurava entre suas coisas algo que pudesse levar para casa nas visitas que eu a fazia, acho que era uma forma de dizer "aqui vai um pouco de mim," uma toalha, um hidratante para minha pele que ela sabe sensível aos momentos de dificuldades, um perfume, um boné, enfim lançava sobre a cama de minha irmã Marta tudo o que tinha para mim, de uma forma carinhosamente desordeira, e dizia "leve é seu".

Todo dia me recomendava, "coma", e porque sabia que esqueço de comer quase sempre, "desconfie", porque conhecia os filhos, demasiado lentos em colher a maldade nas intenções alheias, se "agasalhe ai vem uma frente fria", sem imaginar que ia acabar me exilando num lugar frio e húmido, "descanse", quando já me conhecia insone e hiperativo desde criança. Quando viajava me recomendava, não leve nenhum livro, você já lê demais... "aproveite". E sempre "cuidado ao dirigir, esse transito do Rio..", mal sabia do meu habito de pensar dirigindo a 90 por hora, com o Coldplay no último volume.

Certa noite, quando estava me aprontando para sair à noite, em Sampa, liguei para ela, que me recomendou, "hoje não, fique em casa", tivesse eu escutado e muito de estranho não me teria ocorrido naquela noite.

Reclamava sempre, "você tem tempo para ir a Europa pela quinta vez no ano ,e nada de vir me visitar em Salvador", mal sabia ela das angustias de que a poupava, ela e minha irmã Marta. Ia curtir meus equívocos longe, tentando fingir que não os levava sempre comigo. Mas tinha razão.

Hoje mais uma vez, me surpreendi escutando uma música que me faz lembrar muito dela chamada Nan´s Song composta por Robbie Williams para sua avó falecida. Sua letra me faz lembrar do meu último telefonema para minha mãe, quando ainda estava em casa, sua voz forte e seu sorriso largo (consegui arrancar um último) haviam se reduzido a um som de passarinho ferido, quase um suspiro e já me anunciava sua partida, como que me preparando para sua última iniciação. Depois só sofrimento e saudades.

Todas essas lembranças cabem num oceano, mas será que um oceano de lembranças cabe numa lágrima ?

Como diz Elaine Martins, em uma de suas canções, referindo-se às dores fúteis do amor: só entende de lágrimas quem já chorou, e de perda quem já perdeu.

Esse seu último beijo, eu o sinto até hoje em minha face direita... Espero, em breve, poder retribui-lo.

UMA PRECE !

















4 comentários:

Saullo disse...

É incrível como pequenos gestos as vezes nos tocam de forma que jamais esqueçamos a magnitude da intenção latente; de só fazer o bem àqueles que amamos. É Realmente "O oceano de uma lágrima."

Unknown disse...

As vezes as coisas estão do nosso lado,e não damos a minima importância.Mas nem tudo é exatamente como queremos ou planejamos.

Segredo a Voces disse...

Paulo tem razão, minha mãe muitas vezes pediu socorro ao seu modo e por estar cego por demandas, compromissos e pessoas que não ela deixei escapar sua mão. Não voltará a acontecer...

Unknown disse...
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