sexta-feira, 2 de abril de 2010

DO OUTONO


Estava firmemente decidido a retomar minhas postagens com uma breve reflexão sobre o Verão.
Não achei justo, contudo, homenagear uma estação do ano que desgosto. Muito calor, muito "barulho por nada", obrigação de ser feliz, humidade nas alturas, odores duvidosos se apoderando das mais lindas cidades do mundo. Se pudesse, "pulava" o Verão e seu ápodo o Inverno, pelas contrárias razões, frio extremo, sequidão, ausencia completa de odores, excesso de roupas e humores negros, enfim.
Me volto para a estação que se inicia, a de minha preferencia, o Outono.
Aqui, de dedo em ríste, advirto ao meu leitor que esta não é somente a estação que antescede o Inverno, isso não.
O Outono é quase humano.
Extravagante em cores, um alívio aos olhos e ao corpo, com suas temperaturas amenas nos convida a sair dos ambientes nos quais o Verão nos confinou - condicionados ou condicionantes.
As melhores viagens se fazem no Outono, porque a gente trabalha e não tem tempo para quase nada. Os museus recebem em exposição melhores obras, e menos gente, os cinemas se tornam oásis, e os teatros, templos.
Desaparecem insetos e retornam as aves.
Podemos apreciar os milhares tons de laranja que a natureza nos proporcionam nas regiões temperadas, e o mais lindos ocasos do sol nos trópicos, esses sim, dignos de aplauso.
O céu noturno se torna transparente, e as estrelas se mostram aos amantes com menos apelo à volúpia.
É tempo de se preparar para retiros, ou de fazê-los os que podem e creem.
Os livros nos cantam das estantes, e nossa memória se enche de antigas canções.
Os melhores amores começam no Outono, ou nele se consolidam.
Morrem a "boa morte" quem nessa Estação falece, ou na Primavera, repletos de cores ou de flores.
Nesse Outono mudo. Mais uma vez ? perguntam-se alguns com ar crítico.
Pois que seja, sou de mudar, sou móbile, mas sempre para deixar minha marca por onde passo.
Infelizmente, esse ainda não será meu retorno definitivo ao Rio, cidade que eu amo. Mas seguramente estarei mais perto dela.
Aqui nesse lugar que ora vivo, lugar esquecido por quase todos a ponto de quase morrer, penso que ao menos deixei um legado jurídico, apesar das inúmeras resistências que encontrei.
Curioso caso de entropia, uma cidade pequena que se quer menor. O orgulho do atraso, das perdas, da educação faltosa, dos meios serviços e da falta de urbanidade.
Não culpem italianos e alemães por isso, já que por aqui são os pilares do desenvolvimento e manutenção da economia. A imigração não seria capaz de causar tal estrago.
Não culpem os políticos, tampouco, pois eles agem por impulso da sociedade civil.
O atraso aqui virou um aleijão, como aquele que acostumamos a ver nos indigentes que nos pedem esmolas, cuja visão de início nos causa repulsa, mas aos poucos, dominados pela caridade nos acostumamos a contemplar.
Apenas que o aleijão é genético, e não cultivado, ao contrário do atraso meticulosamente planejado.
Como podem certos lugares, tão pequenos, abrigar tantas divisões e falta de bom senso?
Homens e mulheres de boa vontade não lhes faltam, mas parecem cansados, como no caso do aleijão, já miram tudo com olhar de peixe morto, de gente que de tudo já viu.
Nesse meu Outono pretendo deixar para trás tudo isso, me abrigar no Planalto Central brasileiro, 15º46’47’’ sul, local que, como Dom Bosco previu haverá, não sei quando, de ser lar de uma terceira civilização, mais avançada e justa.
Não pensem, peço vênia, nos políticos de Brasília, pois essa gente vai e vem, mas no futuro que aguarda essa cidade, no simbolismo de seus monumentos, erguidos por obra de um ateu, não pode acaso, para dar-lhe o ar de neutralidade que necessita para abrigar as almas que haverão de transformar o mundo.
Que venha o Outono, que venham suas cores e sua temperança, que venha Brasília.

Um comentário:

Guydo Gomes disse...

Adorei Seu Texto
Parabens!!!
Sucesso ai em Brasilia